Passei os últimos tempos a ler os colunistas do “Observador”, muitos deles antigos amigos, professores, diretores, e fico surpreendido: ou estão no muro ou estão abertamente do lado do Chega/Ventura, o que abre um problema. Uma coisa é mudar de opinião, outra coisa é mudar de princípios. Das duas, uma: ou não diziam o que pensavam há vinte ou quinze anos, ou estão a fazer um flik flak à retaguarda que não tem justificação intelectual, que não revela um mínimo de coerência interna ao nível do pensamento. Revelam aliás defeitos que sempre apontaram à esquerda: incoerência e espírito revolucionário ao sabor do vento. Onde estão os liberais clássicos ou liberais-conservadores que me ensinaram boa parte do que ainda hoje defendo? Como é que liberais e/ou conservadores podem estar agora a defender uma agenda que é na prática revolucionária? Eu sei que há uma direita revolucionária, mas não estava à espera de encontrá-la em bloco num jornal que defende os princípios da liberdade clássica. É como descobrir a mão de ferro de Schmitt onde devia ter a mão invisível de Smith. É como descobrir o relativismo reacionário e nacionalista (o politicamente correto invertido) e não o direito natural de Strauss e Lincoln. É como descobrir um manual revolucionário onde devia estar o constitucionalismo de Hamilton ou Constant. É como estar um fanatismo tribunal em vez do ceticismo de Hume. Como começar? Sabem porque é que BE e PCP estão nas lonas? Porque o Chega entrou no eleitorado da classe mais pobre e menos instruída e não só: entrou no eleitorado que sempre odiou a NATO, a globalização e a UE, entidades que a direita liberal sempre defendeu contra a hegemonia cultural do PCP e depois BE. Agora é o Chega que é contra a globalização (olhe-se a recusa do acordo com o Mercosul), é o Chega que é contrário à UE e é o Chega que está mais próximo do trumpismo que quer destruir a NATO, é o Chega que tem uma agenda económica que faz lembrar um socialismo venezuelano sem vergonha de dizer que é racista. O Chega não ocupou apenas os terrenos eleitorais da esquerda na sociologia eleitoral portuguesa, ocupou a agenda anti liberal no ponto de vista intelectual, quer interna, quer externamente. Portanto, resta uma pergunta: mas então José Manuel Fernandes e Helena Matos não veem que ao apoiar o Chega – direta ou indiretamente - estão a voltar à juventude radical, ou seja, estão de novo a entrar no bloco anti-liberal, anti “democracia burguesa”? E, já agora, João Marques de Almeida e Rui Ramos descobriram agora que afinal são contra a globalização e a favor da “luta de classes” proposta pelo Chega? Como é que alguém que acredita na lei, no mercado e no empreendedorismo pode estar ao lado disto? Como é que alguém que passou a vida a criticar a negação da realidade feita pela esquerda está agora ao lado de alguém que é a negação da realidade em pessoa? Como? As falácias da esquerda ao nível da segurança social, por exemplo, estão hoje no Chega, que diz que não, não é preciso imigrantes para mantermos a SS num nível decente. Onde é que está a frieza analítica que Rui Ramos e João Marques de Almeida e Helena Matos me ensinaram? Porque é que o Chega fica evidentemente no ângulo morto da sua análise? Do ponto de vista constitucional, Ventura é uma evidente ameaça. Em primeiro lugar, não acredita no direito natural e na ideia de direitos inalienáveis do ser humano, aliás, o menino do refluxo nem acredita na igualdade entre os portugueses. Diz que nunca será um presidente de todos os portugueses! Pior: diz que quer acabar com a figura de primeiro-ministro. Ou seja, homens conservadores ou liberais querem votar num caudilhista que é na sua essência igual ao Maduro ou Chávez. Porquê? Porque não conseguem votar num socialista? Mas isto é o quê?, um jogo de bola entre dois clubes? Só porque ouvem a palavra “direita” vão logo a correr? Mas qual direita? Há pelo menos duas direitas e não se misturam, como o socialismo democrático não se misturou com o comunismo durante 40 anos. Então andamos a criticar a geringonça para agora avançarmos com uma geringonça de sinal contrário? Um erro não se corrige com outro erro. Até porque a aliança com um PCP moribundo não é o mesmo que a aliança com um Chega ainda jovem e forte. Não tem comparação. Ter agora o PSD aliado ao Chega para esmagar a esquerda era como recuarmos no tempo e vermos Soares abraçado a Cunhal para esmagar a direita democrática.